Pela Fresta


Você, enquanto deitado em sua cama, numa noite chuvosa, tentando pegar no sono, já se sentiu observado? Você está deitado, olha para porta levemente encostada, o brilho da luz da rua que atravessa a janela da sala fazendo com que uma faixa de luz fraca atravesse por aquela fresta da porta. Sim, você olha para aquela fresta e sabe, há algo do outro lado, e que está a te observar.

Claro, você já não é mais criança, não acredita naquilo, e sabe, é tudo fruto de sua imaginação. Bom, pelo menos isso é o que você acredita, mas será mesmo a verdade? Digo, você está em baixo de suas cobertas, olhando para aquela fresta, de repente, você vê uma sombra passar, mas não sabe se aquilo foi sua imaginação ou não, então você tem que decidir, se levantar e olhar, confirmar com seus olhos o quão medroso você foi, ou de repente descobrir que tudo era real, ou ainda, ficar em baixo da segurança e calor de suas cobertas e continuar sendo um medroso. É uma decisão difícil, mas você sabe que tem de escolher.

Vou lhes contar uma história agora, não se pode comprovar a veracidade dela, mas, cabe a você acreditar ou não. 

Essa história é sobre um garoto medroso que um dia, o único dia em que resolveu enfrentar seus medos, morreu. 

A história começa com Davi em sua cama. Davi morava apenas com seu pai numa pequena fazenda afastada da cidade. Seu pai era um homem trabalhador, ele sozinho conseguia cuidar da fazenda inteira, deixando tudo sempre bem organizado, no entanto, era um pouco mulherengo, mas era de se entender, ele era um homem solitário, que cuidava de tudo sozinho, inclusive de seu filho, que foi abandonado pela mãe quando bebê. 

Nas noites de sexta para sábado, Davi ficava sozinho em casa, seu pai saia para se divertir e aliviar a tensão um pouco. Você pode até pensar que era irresponsabilidade de seu pai deixa-lo sozinho em casa, mas Davi tem 12 anos, já é um homenzinho. Bom, pelo menos era isso que seu pai pensava. 

O pai de Davi sempre o deixava na cama, às 23:00 e encostava a porta de seu quarto. Antes de sair, ligava o alarme da casa e apagava todas as luzes. Davi, às vezes, já estava dormindo quando seu pai saía, outras, ficava vendo TV em seu quarto até o sono bater. 

Então, numa noite dessas em que Davi estava sozinho, de madrugada, uma forte chuva com trovoadas começa a cair, acordando Davi, que se estica e olha para o relógio em cima da mesinha ao lado da porta. Naquele instante, Davi teve a impressão de algo passar através da fresta daquela porta, assustado, se enfiou em baixo das cobertas, contendo sua respiração. E lá ficou, sem olhar para fora, até que por fim dormisse de novo. Quando acordou, tomou aquilo como um sonho, e não se importou mais.

Até que chegou mais uma noite de seu pai ir se divertir. Enquanto dormia no aconchego em sua cama, um barulho acorda Davi. Instintivamente ele olha para a porta, e mantem seu olhar fixo nela. Davi não viu nada, então aconchegou sua cabeça no travesseiro e fechou os olhos, mas segundo depois os abriu, assustado. Ele olhou novamente para a porta, e apenas viu uma sombra se mover. Novamente, se escondeu embaixo das cobertas e lá ficou, até adormecer. 

Davi pensou em contar ao seu pai, mas não queria parecer fraco e medroso, não sabendo o quão forte seu pai era. Então ele manteve segredo de seu pai.

Dessa vez Davi resolveu trancar a porta de seu quarto. Ele o fez assim que seu pai saiu de casa. Mais aliviado, Davi dormiu. Mas acordou de novo no meio da madrugada. E, mais uma vez, viu a sombra de algo em frente a porta. Davi agarrou firme as cobertas para se enfiar embaixo delas, mas lembrou de seu pai, ele queria ser igual a ele. Então Davi tomou sua decisão.

Ele levantou e caminhou até a porta e a abriu de supetão. Não havia nada por ali. Uma corrente de ar acertou seu corpo, fazendo-o tremer. A janela da sala estava aberta. Davi foi até ela e, antes de fechar, viu algo brilhando no céu. Ele correu até a porta, desativou o alarme e saiu para fora. Davi parou, olhando para cima, tentando enxergar o que era aquela coisa no céu que piscava em diversas cores. 

De repente um clarão o cega. Davi não conseguiu enxergar absolutamente nada, então sentiu, estavam o agarrando. Davi lutou, esperneou, até que algo atingiu sua cabeça. 

Davi acordou, ele estava caído no chão, estava chovendo forte, ele caminhou até a porta de sua casa e de repente ele já estava lá dentro. Ele caminhou até seu quarto e chegou à porta. Quando a toucou, pode perceber que ela não se mexia, por mais força que fizesse. Então ele olhou pela fresta da porta e viu a si mesmo em sua cama, olhando com olhar assustado. 

Davi se virou e correu até a janela da sala, parando. Então se lembrou de tudo o que aconteceu e soube que estava morto. Davi lembra daquelas luzes, ele lembra daquelas criaturas o levando, brincando com seu corpo, Davi lembra do sofrimento que teve, lembra de perder membro por membro de seu corpo até que por fim seu coração parasse de bater. 

Então Davi decidiu impedir que ele mesmo morresse. Todas as noites de Sexta a partir dali Davi aparecia em frente a porta de seu quarto e tentava incansavelmente fecha-la. 

Escrito por: Alan Douglas de O Olho Mágico

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